Culpas

Com o tempo é possível perceber as culpas que se tem, mas também as culpas que não são suas.

Há sempre uma sensação à minha espreita de que todas as consequências das coisas que acontecem são exclusivamente de minha responsabilidade. Mas, aos poucos, tenho percebido que definitivamente isso não é verdade. Nas entrelinhas da vida, o sentimento de culpa acabava imputando a mim a necessidade de mudança e de aceitação de situações as quais eu não era de acordo. Obviamente, existem diversas situações das quais escapar é impossível e ceder é inevitável. Contudo, na maioria das vezes, escolher é uma opção e dizer não é talvez o melhor caminho.

Com o tempo é possível perceber que a culpa nem sempre reside apenas numa pessoa. Nem sempre a culpa é minha. E não, a culpa não é só minha. As circunstâncias de todas as esferas da vida são complexas demais pra insistirmos em auto-apontarmos o dedo da culpabilidade a apenas um alguém quando não se trilha sozinho uma história.


Há pouco mais de um ano eu procurei ajuda psicológica levando comigo uma insustentável sensação de culpa, sob vários aspectos. Com o tempo fui percebendo que não preciso me sentir responsável por coisas que não estão ao meu alcance. Não posso me sentir culpado por não atender as expectativas alheias. Não posso carregar comigo o que outras pessoas sentem, pensam, agem e sonham. Não sou responsável pelo que os outros sentem quando eu mesmo não consigo decifrar o que eu mesmo sinto em relação a algo. Faz pouco tempo que finalmente me dei conta de que viver sob a necessidade de cativar alguém sem me deixar cativar pela circunstância é um erro. E aí sim reside boa parte da minha culpa.

Não aceito mais a tese de que carrego sozinho as culpas de destinos dos quais não trilhei só. Não aceito mais acreditar que a responsabilidade seja apenas atrelada à forma com que ajo ou penso. Se algumas coisas não dão certo, as responsabilidades são compartilhadas. Mesmo após tantos anos, ainda vejo que frações de culpa respingam por todos os lados, em todas as pessoas, inclusive em mim. A culpa sempre é fragmentada, particulada e não particular. A culpa é como uma nuvem, que de longe parece única e sólida, mas de perto mal se vê a forma que tem.

A culpa é algo da qual não se pode fugir. Ela tem causa e consequência. Mas não é filha única. É um desastre muitas vezes natural e compartilhado. O mais importante de tudo é aprender com as lições que nossas culpas diárias nos proporcionam e nunca deixar de lembrar que elas sempre existirão, mas não nascerão sozinhas. E, tal como as nuvens, as culpas aparecem e se dissipam, deixando o sol brilhar mais uma vez.


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