Conexões no vazio

Talvez eu não seja o tipo de pessoa que consegue equilibrar bem as relações humanas.

Percebi nos últimos dias que, bem mais rápido do que eu esperava, as conexões e reconexões com algumas pessoas passaram a acontecer, naturalmente. É fácil, hoje, perceber que essas reconexões dependiam apenas de mim, do quanto eu realmente lhes proporcionava enquanto pessoas; enquanto empatia.

Sempre preferi estar rodeado de pessoas e possibilidades. Não consigo me enxergar numa rotina que dure muito tempo - pelo menos é o que sempre soube sobre mim. Rotinas necessárias, como as profissionais e acadêmicas, eu até que encaro bem (mesmo que, por baixo, eu já deva ter passado por uns vinte empregos durante os meus dezoito anos de trabalho). Agora, as rotinas em que estou mas tenho (ou deveria ter) possibilidades de escolha, nunca me agradaram.

Antes dos últimos anos, onde me vi em uma espiral rotineira do qual não conseguia sair, as pessoas - e eu mesmo - me conheciam como uma pessoa que aceitava qualquer convite, estava disposto para tudo, conversava sobre tudo e se interessava sobre tudo. Não importava se fosse segunda, terça ou domingo, se houvesse amigos e um motivo banal, lá estava eu pronto pra algo novo.

Dias atrás me peguei pensando no que eu poderia, agora, fazer da vida. Digamos que me encontro em uma fase de "excesso" de liberdade: profissional, acadêmica e afetiva. Como há anos não me via tão livre assim, é um pouco difícil conseguir aceitar o vazio que se abre na rotina, ao mesmo tempo em que preciso (ou não) decidir o que se fazer com o tempo.

Olhem só eu, reclamando de excesso de tempo... Pois é, desde que entrei na universidade, em 2009, minha vida sempre foi movida pela rotina necessária, até certa altura. Eu, até mês retrasado, ainda reclamava da falta de tempo, e de uma hora pra outra, puf! Brotam lacunas de tempo livre em todos os dias.


Aprendi na filosofia budista que o vazio é fundamental na vida e que precisamos lidar com ele. Nossa natureza humana procura sempre preenchê-los, seja com excessos, seja com afetos, seja com projetos. Mas, na realidade, ter um pouco de vazio é bom, importante e necessário. Numa das sessões de terapia, eu procurei entender o vazio pela linha de análise do meu psicólogo e propus uma analogia.

O vazio necessário seria como uma grande faxina. Quando fazemos aquela faxina, é necessário tirar todos os móveis do lugar, amontoá-los, abrir um grande espaço nos cômodos... Ou seja, para limpar uma casa, é necessário de vazio. Descartar o que você não vê mais utilidade, o que lhe incomoda, ou até mesmo algo pelo qual você tem muito carinho, mas não possui mais lugar em sua casa; deixar o ar livre passar pelas janelas, sacudir os tapetes, limpar todos os cantos, até mesmo aqueles que estão há meses (ou anos) precisando de atenção. Ao final, quando estiver tudo limpo, claro, seco, renovado, você pode pensar em reorganizar tudo de novo e, aí, quem sabe, ver novas utilidades para cada móvel, cada objeto, cada canto da sua casa. Será uma nova casa, mesmo que ainda seja seu lar; agora um lar mais aconchegante, convidativo, feliz. O vazio necessário é como uma grande faxina na alma.

Estou nesse momento agora. Mais especificamente naquele momento da faxina onde os móveis estão fora do lugar, com espaços vazios esperando a limpeza. Só que há tanta coisa a ser feita que às vezes não sei por onde começar...

Bom, mas uma hora a gente tem arregaçar as mangas e por as mãos na massa. E, é nessa hora, que surge aquele amigo, aquele vizinho, aquelas pessoas que estão vendo tanta coisa a ser feita que, carinhosamente, oferecem ajuda. Muitas vezes sem nem saber que estão ajudando, porém já fazendo um grande favor. Abrindo espaços, resgatando sentidos, restabelecendo re-conexões.

Algo tão simples porém tão lindo é a beleza do ser humano. Suas ações, intenções e situações. Muitas vezes eu, que talvez eu não seja o tipo de pessoa que consegue equilibrar bem as relações humanas, não valorizei devidamente a infinidade de pessoas com as quais interagi por tantos anos. Foi no meio da minha faxina que percebi que, mesmo sem saber equilibrar, é de várias e várias relações humanas que preciso pra viver. Talvez essa seja, sim, a minha rotina necessária.

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