Aquela sensação

Não sei se isso acontece com todo mundo, mas comigo geralmente é assim: consigo perceber, meio que instintivamente, quando preciso mudar drasticamente alguma coisa na minha vida. Mesmo que não faça sentido algum, alguma coisa fica me alertando lá no fundo: "Hora de mudar!".

Isso já aconteceu várias vezes na minha vida. Foi assim, por exemplo, quando eu decidi sair da casa da minha mãe, porque me sentia incomodado e limitado, dado ao relacionamento que tínhamos na época. Essa mudança foi dolorida, mas se mostrou necessária com o passar do tempo: consegui mais espaço, tive maior crescimento e comecei a sonhar mais. Depois, acabei decidindo, meio que no impulso, pedir transferência do meu trabalho de Barra Velha para Florianópolis, o que acarretaria na mudança de muitas coisas. De longe, foi uma das minhas maiores mudanças: há quase dez anos eu vinha pra cá morar sozinho, sem saber no que isso daria, e se certo daria. No fim das contas, foi a melhor coisa que eu poderia ter feito.

Decidi, um ano depois, que deveria deixar algumas coisas de lado pra tentar passar em um vestibular. Mesmo que eu achasse na época que seria difícil mudar completamente a rotina, que seria um desafio enorme retomar os estudos após anos, eu sabia que deveria fazer aquilo. Enfim, a universidade acabou mudando a minha vida em quase todos os sentidos, e praticamente todos em perspectivas positivas. Depois de um tempo e ter passado por alguns empregos, decidi que deveria pedir demissão de um sem ter outro em vista, simplesmente porque eu sentia que deveria fazê-lo. Essa saída abriu uma porta maravilhosa para mim, então a sensação de mudança havia vencido mais uma vez.

Eu já estava em um emprego ótimo e que muitas pessoas da minha área desejavam estar. Mas, de repente, aquela sensação veio de novo - hora de mudar. Comecei a ver alternativas e a mais improvável deu certo. Passei num concurso e fui nomeado duas semanas antes do meu setor inteiro ser desintegrado - ou seja, por pouco e não ficava desempregado e sem rumo.


Na maioria das vezes, essa sensação de mudança veio do nada. Na maioria das vezes eu senti que precisava dar ouvidos a ela, mesmo que fosse confuso e irracional. E em praticamente todas elas eu percebi, com o passar do tempo, que eu tinha feito a coisa certa em dar ouvidos à minha intuição.

Recentemente eu a ouvi mais uma vez. Foi difícil, não fazia muito sentido, mas aquela sensação estava forte demais pra ser silenciada. Enquanto eu não decidisse o que fazer e tomasse alguma posição, a sensação não iria me deixar em paz. E decidi. E mudei. Como toda mudança, há desconforto, desnorteamento, desestabilidade. Mas passa. É como uma água turbulenta que precisa de tempo pra se acalmar. É como uma tempestade, que precisa acontecer para dar chance a outras coisas acontecerem; mas basta esperar um pouco que a luz do dia novamente aparece - já que ela sempre esteve lá, estava apenas esperando o seu tempo de reaparecer.

Ouvir a própria intuição é ouvir a si mesmo. Nessa guinada por mudança, um dos motivos está justamente nisso. Tudo o que às vezes precisamos é de um pouquinho de paciência, para entender a passagem do tempo; de memória, para valorizarmos o que vivemos; e de sabedoria, para compreendermos que nada é permanente. Nada é permanente - e a mudança é constante. Quem sabe não está vindo mais uma por aí?

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